Recentemente, prevalece a tendência em se ver o relacionamento entre o cidadão e o Estado, o cidadão e o sistema político, o cidadão e a própria atividade política sob uma ótica maniqueísta, segundo a qual o Estado apresenta-se como o vilão e a sociedade, vítima indefesa.
Sabe-se que as dicotomias, via de regra, não se prestam a elucidações dos fenômenos de índole social. Teoricamente, elas separam o que são lados da mesma moeda, partes do mesmo todo. O maniqueísmo inviabiliza mesmo qualquer noção de cidadania, pois ou se aceita o Estado como mal necessário, à maneira agostiniana, ou se o nega totalmente, à moda anarquista.
Na prática, ele acaba por revelar uma atitude paternalista ao considerar o povo vítima impotente diante das maquinações do poder do Estado, ou de grupos dominantes. Acaba por bestializar o povo. Parece-nos ao contrário que, exceto em casos muito excepcionais e passageiros de sistemas respaldados inteiramente pela repressão, é mais fecundo conceber as relações entre o cidadão e o Estado como uma via de mão dupla, embora não necessariamente equilibrada. Todo sistema de dominação, para que sobreviva, terá de desenvolver uma base qualquer de legitimidade, ainda que seja a apatia dos cidadãos.
O momento de transição do Império para a República é particularmente propício ao estudo dessa questão. Tratava-se da primeira grande mudança do regime político após a independência. Mais ainda, tratava-se da implantação de um sistema de governo que propunha, exatamente, trazer o povo para o proscênio da atividade política.
CARVALHO, José Murilo de. Os Bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. Companhia das Letras, 4. ed., 2019, com adaptações.
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Text 1
How can he explain to him? The world is not run from where he thinks. Not from his border fortresses, not even from Whitehall. The world is run from Antwerp, from Florence, from places he has never imagined; from Lisbon, from where the ships with sails of silk drift west and are burned up in the sun. Not from castle walls, but from counting houses, not by the call of the bugle but by the click of the abacus, not by the grate and click of the mechanism of the gun but by the scrape of the pen on the page of the promissory note that pays for the gun and the gunsmith and the powder and shot.
Mantel, Hilary. (2010) Wolf Hall: a novel. Picador, …



