Quanto ao sul do Pará – a fratura exposta do nosso problema fundiário -, 24 mil famílias estão sendo assentadas em dois anos; 800 mil hectares foram desapro- priados e R$ 265 milhões aplicados apenas em 98. Resultado, as invasões caíram bastante e os crimes por conta de questões fundiárias diminuíram acentuadamente.
Tem mais: este ano assentamos – média nacional – uma família a cada cinco minutos enquanto o tempo decorrido entre a desapropriação e a colocação da família sobre a terra diminuiu 336 dias (quase um ano). Em parte decorrência disso, caiu 62%, nacionalmente, o número de assassinatos de trabalhadores rurais em 1998, tomando-se 1997 por base.
A rigor, com a ampla mudança legal (o novo Imposto Territorial Rural, a aprovação do rito sumário etc.) conquistada no Congresso Nacional, com a criação de instrumentos poderosos como o Banco da Terra, com a desapropriação, em quatro anos, de mais de 8 milhões de hectares e o assentamento de 300 mil famílias, o atual governo enfrentou – e está vencendo – o secular problema da terra em nosso país.
- O Brasil é o campeão mundial de concentração de renda, riqueza e desigualdade social. Somente aqui os 10% mais ricos são donos de 48% de tudo o que é produzido.
- É o campeão de pagamento de juros ao exterior. Cerca de 52% do Orçamento da União vai para pagar juros.
- É o campeão da dívida externa. Pulamos de US$ 98 bilhões para US$ 179 bilhões em quatro anos.
- As condições de vida se comparam com as dos países mais pobres do planeta: 44% da população ganha menos de R$ 2 por dia, 18% da população está abaixo da pobreza absoluta. Há ainda 17% de analfabetos adultos. Apenas 41% têm esgoto. A cada mil crianças que nascem, 52 morrem. Temos 18,9% de desemprego, o que revela um crescimento de 209% no desemprego de 1980 até hoje. O índice de homicídios nas grandes cidades era de 11 para cada 100 mil habitantes no início do governo FHC. Agora é de 20.
- Somos o segundo país do mundo de maior concentração da propriedade da terra.
- O governo orgulha-se que o Real aumentou o consumo e usa dados esdrúxulos de consumo de iogurte, queijo, viagens ao exterior. Como se pobre consumisse. Como explicar, no entanto, que nesses quatro anos o salário subiu apenas 27% (em média) no Brasil? E mesmo a inflação, que dizem ser inexistente, subiu 58% no mesmo período. Obviamente, o poder de compra médio, e sobretudo dos mais pobres, diminuiu.
Um amigo de Boston (brasileiro) me escreve perguntando notícias do Brasil. Que é que posso dizer, evitando ser desprimorosa? Bem, esse medo de ser desprimorosa já é uma dificuldade que se carrega desde muito tempo, desde Getúlio, talvez. Então, se a gente se arriscar às queixas, sempre descobrirá motivos para reclamações.
Mas hoje em dia, francamente, só dá vontade de responder aos amigos de fora dizendo que estamos indo muito bem. Desde a cúpula do governo: temos um presidente muito especial – sem aquela casca espessa dos velhos políticos profissionais que parecem ter um discurso gravado na mão, pronto para ser lido e dizendo quase sempre os mesmos lugares-comuns. Já o nosso FH é um intelectual que lê os livros da sua escolha e não os das listinhas do protocolo, compostas pelos secretários. O presidente é um homem aberto à discussão política, à democracia, às boas normas da convivência internacional. E fala línguas, é mesmo poliglota. Quando vai ao estrangeiro fala um belo inglês de Oxford, um francês pra ninguém botar defeito; no espanhol então é imbatível. Não sei se fala alemão, mas, também, alemão é tão difícil para brasileiro, que só quem é filho de pai e mãe germânicos herda o falar alemão. FH dialoga até com a rainha da Inglaterra com absoluta segurança, de chefe de estado para chefe de estado. É mais fácil a rainha fazer uma gafe do que ele.
Isso quanto aos aspectos exteriores do governo Fernando Henrique. Quanto à vida do povo, de nós todos, a média é de razoável para bom. A carestia anda grande, mas onde é que ela é pequena? Uma coisa que se deve ressaltar e ninguém o faz: quem se lembra mais de inflação? Quem se recorda de poucos anos atrás, os tempos de inflação vertiginosa, quando você comprava um par de sapatos por um preço e, sucedendo ir à sapataria para trocar o número do calçado que estava lhe apertando o pé, a sapataria lhe cobrava um acréscimo pela troca ? porque o sapato aumentara de preço da véspera para o dia seguinte! Isso aconteceu comigo. Várias vezes por ano a gente tinha aumento de salário, é verdade; mas não adiantava, porque o aumento do nosso ganho jamais alcançava o aumento da inflação. E esse alívio da inflação bastaria para a gente se sentir satisfeita com o governo. Quanto ao mais, de certa forma a ordem reina por toda parte; descontando, é claro, as desordens inevitáveis – atropelamentos, passeatas reivindicando melhor salário para algumas categorias. Deputado fazendo discurso em que diz que este país continuará perdido enquanto o partido dele não subir ao governo; e há as justas greves de professores, justas porque eles realmente ganham mal, em todo o mundo.
Juiz também, pelo que se diz, não ganha o merecido. Mas juiz é outra profissão perigosa, geradora também de ressentimentos. Quase todo mundo tem um parente ou amigo que recebeu de algum juiz uma sentença dura (não importa que seja merecida) e tem que acatar a sentença, mas guarda raiva no coração.
O mundo é muito difícil de explicitar. À medida que vou ficando mais velha, uma das minhas perplexidades é descobrir como é que a espécie humana consegue habitar e comandar este mundo, por milênios, dentro de condições que, sempre para uma grande maioria, são absolutamente intoleráveis! Mas a gente vai vivendo, vota nas eleições, paga os impostos, casa no civil, batiza os filhos, faz tudo com conformação e paciência e jamais perde a determinação de um dia conquistar a felicidade!
E não falei nas guerras. Mas guerra é uma coisa inacreditável: o povo só combate nelas levado por uma espécie de embriaguez coletiva, a poder de banda de música, de hinos, de discursos patrióticos. E quando a guerra acaba, dá no pessoal uma espécie de amnésia coletiva e seletiva: só se recordam as vitórias.
O mais curioso de tudo é que, sendo a vida um problema tão difícil de enfrentar, ninguém quer morrer. Todos ? absolutamente todos – só se empenham em prolongar os seus dias cá no mundo, num apego à vida tão grande, mas tão grande, que é como se vivêramos no próprio paraíso.
É como eu disse no começo: o mundo é mesmo inexplicável.
esperança, desespero ou conformação?
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