Ser jovem
Ser jovem é não perder o encanto e o susto de qualquer espera. É, sobretudo, não ficar fixado nos padrões da própria formação. Ser jovem é ter abertura para o novo na mesma medida do respeito ao imutável.
É acreditar um pouco na imortalidade em vida, é gostar de festa, o jogo, a brincadeira, a lua, o impossível, o distante.
Ser jovem é ser bêbado de infinitos que terminam logo ali. É só pensar na morte de vez em quando. É não saber de nada e poder tudo. (…)
Ser jovem é estar sempre aprendendo inglês, é gostar de cor, xarope, gengibirra e pastel de padaria. Ser jovem é não ter azia, é gostar de dormir e crer na mudança; é ter medo do bolo e lamber a calda. (…)
Ser jovem é beber chuvas, ter estranhezas, súbitas e inexplicáveis atrações. É temer o testemunho, detestar os solenes, e duvidar das palavras. Ser jovem é não acreditar no que está pensando exceto se o pensamento permanecer depois. É saber sorrir e alimentar secretas simpatias pelos crentes que cantam nas praças em semicírculo, Bíblia na mão, música no coração. (…)
Ser jovem é ser capaz de compreender o dia, de entender o reclamo da manhã e aprender a apoiar sua existência. Ser jovem é continuar gostando de deitar na grama. É gostar de beijo, de pele, de ócio. Ser jovem é não perder o hábito de se acariciar.
É ficar se aprontando (“Já cheguei, mamãe!”) morrendo de medo.
Ser jovem é permanecer descobrindo. É querer ir a lugar e não conhecer Finlândia, Escócia e praias adivinhadas. É sentir cheiros rançosos: cheiro de férias, cheiro de chuva empoçada em casa em dia de chuva, cheiro de festa, aipim, camisa nova, marcenaria ou toalha lá do clube.
Ser jovem é ter confiança como quem salta, se possível de mãos dadas com o ar. É ter coragem de nascer a cada dia e embulhar as fossas no celofane do não faz mal. É acreditar em terras, pessoas, mitos, forças, sons; é crer no que não vale a pena mas dá à vida se não fosse isso.
É descobrir um belo que não conta. É fazer as revelações e ir para casa com o gosto do seu silêncio amurado de agridoce. (…)
Ser jovem é misturar tudo isso com a idade que tenha, trinta, quarenta, cinquenta, sessenta ou dezenove. É ser sempre abrir a porta com emoção. É esperar dos outros o que ainda não desistiu de querer. Ser jovem é viver em estado de fundo musical de superpopulação de Metrô. É dobrar esquinas, mundos, espaços, luzes, flores, livros, discos, canções.
É menininha com um profundo, aberto e incomensurável abraço feito de teta, cocada preta, dentes brancos e dedos tímidos, todos prontos para os desatinos da vida. Com uma profunda e permanente vocação de SER.
DA TÁVOLA, Arthur. Ser jovem. In: SER jovem. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. ISBN 978-8520903179.
Disponível em: https://contobrasileiro.com.br/ser-jovem-cronica-de-arthur-da-tavola/. Acesso em: 15 set. 2023. (adaptado)
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